sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Un dia que durarà anys



27 de Outubro de 2017 - dia da declaração da independência da República da Catalunha.


quinta-feira, 26 de outubro de 2017

A imagem do ano


Esta imagem dos incêndios de 15 de Outubro em Portugal, é certamente a mais forte candidata à fotografia do ano de 2017.



sábado, 14 de outubro de 2017

(In)declarados


E para terminar esta semana (pouco produtiva, diga-se de passagem), nada como o artigo de quinta-feira do Hoje Macau, sobre o referendo na Catalunha - pronto, já me pronunciei sobre o assunto. A continuação de um bom fim-de-semana para todos, e vão para dentro, uma vez que parece que amanhã vamos ter sinal 8 de tufão.

Parece ter chegado a um aliviante impasse, a situação na Comunidade Autónoma da Catalunha, depois do seu presidente Carles Puigdemont ter vindo ontem declarar a “independência suspensa” da região, o que em termos práticos significa que se regressa a estaca zero, ao momento antes do anúncio do referendo do último 1 de Outubro. O diferendo entre Madrid e Barcelona já é novidade nenhuma para ninguém, divide as opiniões, por vezes de forma mais apaixonada do que seria normal, mas por enquanto não, não vamos ter a reprise da Guerra Civil espanhola, ninguém vai ser encostado a um paredão e fuzilado, não vão haver terrores brancos, vermelhos ou de outra cor qualquer. E ainda bem, digo eu. A tal independência fica agora “suspensa”, qual “jamon” ibérico num fumeiro da fronteira com a França (pessoalmente prefiro o salmantino). Parece que numa Europa onde as tensões ideológicas parecem subir cada vez mais de tom, este é um refrescante passo atrás no que toca à questão catalã.

De facto a questão da Catalunha é demasiado complexa para se chegar a um consenso. A região pertencia à antiga coroa de Aragão, em conjunto com actual comunidade autónoma com o mesmo nome, a comunidade valenciana, as ilhas Baleares, a Sardenha, a Córsega e o sul de Itália. Com o fim deste reino, em inícios do século XVIII, os chamados “países catalães” foram integrados na coroa de Castela, mas isto nunca foi pacífico. A última vez que a Catalunha declarou a independência foi em 1934, por Lluís Companys, uma espécie de Puigdemont da época, que seria julgado e executado seis anos mais tarde pelo regime franquista, depois do fim da Guerra Civil. A opressão exercida por Franco parece ainda bem presente na memória dos povos que compõem a Espanha actual – e porque não haveria de estar, uma vez que nem passaram 50 anos desde a morte do “caudilho” galego – e a Catalunha não foi excepção. Franco proibiu a língua catalã, entre outras medidas na tentativa de uniformizar a nação espanhola, e só a partir da constituição de 1978 os catalães voltaram a ver reconhecida a sua identidade.

Ao contrário dos bascos, que enveredaram pela luta armada, os independentistas catalães optaram antes pelo endoutrinamento, levando ao aparecimento de uma geração que pouco ou nada quer ter a ver com Madrid. O argumento económico não é também despeciendo, uma vez que a Catalunha contribui com uma boa parte do PIB de Espanha, um argumento que, e sejamos honestos, não é fácil de digerir no contexto de um território debaixo da mesma bandeira, e tão vasto como é a Espanha. O próprio parlamento catalão é o reflexo desta divisão; os independentistas do “Juntos pelo sim” ocupam 62 dos 135 assentos, e precisam da “muleta” do CUP (Candidatura de Unidade Popular), que detém 10 lugares, para formar uma maioria que lhes permita governar. Quanto ao referendo que Madrid proibiu e reprimiu, e cuja adesão e a própria forma como foi realizado não nos deixa saber realmente qual é a vontade do povo catalão, há um dado a reter: o da abstenção. É desonesto afirmar que os catalães que não participaram do referendo não estão interessados na independência, e a tal “maioria silenciosa” da qual uma parte saiu às ruas no início desta semana declarando a sua lealdade a Madrid, pode não ser uma maioria, de todo.

A muitos de nós, portugueses, encanta o romantismo da causa da independência catalã – deve ser a nossa costela da padeira de Aljubarrota a falar mais alto. Chegou-se mesmo a estabelecer um paralelo entre a actual situação na Catalunha e a restauração de 1640, pelo menos no que concerne à legalidade e à constitucionalidade da iniciativa separatista; Portugal também se declarou independente à revelia da vontade de Castela. Outros há ainda que não viam com bons olhos o nascimento de uma terceira nação ibérica, e curiosamente vi gente que esteve do lado do Brexit a manifestar-se contra a “terra lliure” catalã, como se existissem cisões que se justificam mais do que outras (a própria União Europeia opôs-se desde a primeira hora às intenções separatistas da Catalunha). Nas redes sociais as posições extremaram-se, os ânimos exaltaram-se, amigos desamigaram-se, pintaram-se os piores cenários, choveram acusações de parte a parte, enfim, uma indigesta butifarra. Não há necessidade, então? A gente pode trocar ideias e pontos de vista divergentes, sem tornar isto num Real Madrid – Barcelona…



Portugal no mundial da Rússia



A selecção portuguesa de futebol qualificou-se na última terça-feira para o mundial de 2018 na Rússia (sim, eu sei, tenho andado "very busy"), ao bater em casa a sua congénere da Suíça por 2-0, na última jornada do Grupo B da zona europeia de qualificação. Portugal só tinha perdido na ronda inaugural com os mesmos suíços, e pelo mesmo resultado, e de uma campanha completamente vitoriosa de ambas as partes, os nosses rapazes acabaram por obter a qualificação directa através de um melhor "goal average" sobre os helvéticos. Num jogo em que as bancadas do Estádio da Luz estiveram repletas de celebridades - com destaque para a rainha "pop", Madonna - Portugal fez uma primeira parte sofrível, mas que teve um final feliz graças a um autogolo do defesa Johan Djorou. No segundo tempo a equipa de Fernando Santos evidenciou a sua superioridade sobre o adversário, e além de ter marcado um segundo golo por intermédio de André Silva, ainda viu Cristiano Ronaldo falhar uma oportunidade na cara do guarda-redes suíço. Valeu a vitória, que era o essencial, num grupo em que Portugal e a Suíça foran bastante superiores à oposição, terminando ambos com 27 pontos, mais que o dobro dos pontos do terceiro, a Hungria, que só somou 13. A Suíça ainda pode chegar à fase final do mundial através do "play-off". Portugal qualificou-se pela sétima vez na sua história para um mundial, e pela quinta consecutiva, e não falha um torneio internacional desde 1998. Uma geração bem habituada, esta dos adeptos das cores da selecção lusa.


quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Provedor do leitor


Bem vindos a mais um Provedor do Leitor, que demorou por motivos de eu ter mais que fazer. Assim, no post Uma estátua, da última sexta-feira, recebi alguns comentários, dos quais destaco dois. Primeiro este:


Hmm...sim, isto dava pano para mangas, mas mantenho-me fiel à elucubração que deixei no post. Só queria deixar claro ao estimado anónimo que não me chamo "Gomes". O meu nome é Luís Crespo. Posto isto...


No mesmo post recebi um comentário de um elemento do "Escudo Identitário", negando a ligação deste grupo ao PNR. Fiz o que me sugeriu, apresentei-lhe as evidências que me deixaram a pensar que de facto tinham alguma ligação de extrema-direita, e eles insistiram que não, não têm - que bom para eles, sinceramente. De resto, gostava de salientar a simpatia e a diplomacia com que me responderam, por muito que eu não concorde com os ideias deste espectro político. Finalmente...


Ah ah ah ah!, deveras. Recebi este comentário da visada no post Perguntar não ofende, do último dia 3, e ao mesmo tempo...


...este outro, do post Vergonha! Nojo!, da última sexta-feira. Ora bem, esta senhora, que andou a pedir mais mortos em Pedrógão Grande para os usar como arma de arremesso contra o Governo, e que nas últimas eleições autárquicas levou um MELÃO de todo o tamanho, devia olhar ao espelho antes de fazer estas tristes insinuações - como é aliás seu apanágio:


Depois desse ENORME sucesso que foi criar uma "plataforma cívica" nas redes sociais na sequência da tragédia de Pedrógão, e que em quatro meses teve a adesão de menos de 3 mil pessoas, desatou a publicar vídeos que ninguém vê - 15 pessoas interessadas nas "mentiras do Costa"? Eu tenho mais que o triplo dessas visualizações com as palhaçadas de segundos que publico no YouTube. Eu tenho 42 anos, e não preciso de publicar uma "carta aberta" parva dirigida à Mariana Mortágua ou a mais ninguém para me dar a conhecer (Comprou o seu primeiro carro com o seu dinheiro aos 23 anos? Ah, valente!), e tives durante a minha juventude certas experiências, como quase toda a gente teve, mas não cheguei a esta idade a falar sozinho. Isto para que se veja quem é que está aqui "queimado". No seu caso deve ser por culpa da tinta no cabelo. 

E é só. Muito obrigado pela atenção.


domingo, 8 de outubro de 2017

As insinuações da Parrachona

Fernando Duarte Rocha, marido da actriz Maria Vieira, voltou à carga na página de Facebook da mulher - se não foi ele, PAGO para ver ela assumir isto que aqui está, e o que vem a seguir. Desta vez a "Parrachona" pegou numa notícia a propósito de uma exposição de arte no Brasil, "cozinhou-a" à sua boa maneira fascista e nazi, e "imaginou" uma mirabolante teoria da conspiração em que "a esquerda", em conluio com "os regimes islâmicos", visam a "normalização da pedofilia". Mais uma vez o Bloco de Esquerda, um espinho na pata deste triste personagem, volta a ser seu alvo preferencial. Mas quanto à tal exposição de arte no Brasil, vamos ver o que aconteceu, concretamente. Como diria um conhecido dirigente desportivo português, "o que passou-se"?


Se quiserem podem ler aqui a notícia do Estado de S. Paulo, que explica o incidente, e do qual destaco estas passagens:
"Em nota divulgada no Facebook, o MAM ressalta que a criança estava acompanhada da mãe e que a sala onde ocorria a performance estava "devidamente sinalizada sobre o teor da apresentação, incluindo a nudez artística". O museu também garante que o trabalho, entitulado "La Bête", não tem qualquer conteúdo erótico".
"A criança parece mostrar curiosidade enquanto engatinha pelo tatame, vendo uma mulher adulta tocar os pés do artista. A mulher a incentiva a participar, a menina ri, toca rapidamente os dedos dos pés dele, e volta à plateia diante de sorrisos do público".
Ora bem, apesar de eu próprio considerar que aquela é uma mãe irresponsável, e que a exposição não se inclui naquilo que eu considero arte, ou sequer bom gosto - mas e depois? - esta é apenas minha opinião! Há quem considere isto "interessante", ou reconheça-lhe valor artístico, enfim. O que eu não entendo é como é que dá para politizar essa desgraça que é a pedofilia, e a partir desta exposição urdir aquelas conclusões para lá de delirantes. E já agora, quem disse que a pedofilia é um exclusivo das esquerdas, dos islâmicos, ou de outra parte qualquer?


Este é Milo Yannoupoulos, homossexual, ex-editor da Breitbart e conhecida personalidade da alt+right norte-americana, já algumas vezes elogiado pela Parrachona, que o considera uma espécie de "farol para a comunidade LGBT", devido às suas posições anti-islâmicas. Yannopoulos foi apanhado neste entrevista (vejam a partir dos 3 minutos) a defender as relações entre adultos "de 30 e 40 anos" e crianças de 14 ou 15, considerando-as "uma coisa normal", para choque do entrevistador. E esta, hein? E agora, pode-se tirar daqui que conclusão, além de que este indivíduo é um doente? E ele representa toda a sua laia, a direita, ou sequer parte dela? Claro que não! Que parvoíce.

E para terminar mais este pudim indigesto servido pela Parrachona, há isto:


Well, well, well. A quem é que o Fernandinho se referia, exactamente? Acho isto bastante estranho, uma vez que os defensores desta autêntica pouca vergonha louvam a "Maria Vieira" pela sua frontalidade, e por "não ter papas na língua". Então porque não concretiza aquelas insinuações carregadas de veneneno, de azedume, de insídia? É mesmo disto que o meu povo gosta? Duvido muito. Já passou do prazo de validade, esta farsa que nunca devia ter começado. Felizmente para as pessoas de bem e infelizmente para a Parrachona, este caminha a passos largos para o abismo. Que ele próprio cavou, claro.


Não corra, Andorra!



Foi com a cabeça no jogo decisivo da próxima terça-feira na Luz contra a Suíça que Portugal entrou ontem no Estadi Nacional em Andorra-a-velha, e de lá saíu com uma magra vitória por 2-0 contra a modesta selecção da casa. Tal como se esperava, Andorra defendeu com unhas e dentes, com o objectivo de não sair goleada, mas Portugal só conseguiu os dois golos que lhe garantiram os três pontos no segundo tempo, depois da entrada de Cristiano Ronaldo, que desbloqueou a muralha defensiva da equipa adversária. Fernando Santos deixou o nº 7 no banco, em virtude deste ter um cartão amarelo e poder falhar o jogo de terça caso fosse novamente admoestado. Depois de uma primeira parte sem brilho e sem golos, com André Silva muito desinspirado lá na frente, o jogador do Real Madrid entrou para o lugar de Gelson Martins, e inaugurou o marcador aos 63 minutos. André Silva ainda se viria a redimir, apontando o segundo já nos minutos finais do encontro.


Portugal chega à última ronda do Grupo B da zona de qualificação europeia - nitidamente o mais desequilibrado - a depender de si mesmo. Os suíços fizeram o que lhes competia e bateram a desapontante selecção da Hungria por 5-2, mas graças ao maior "goal average", basta à nossa selecção vencer na Luz para garantir o primeiro lugar. De recordar que Portugal foi na Suíça por 0-2, numa partida disputada logo na primeira ronda da qualificação.


sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Vergonha! Nojo!


Sim, 64, estes dois estarolas - para não lhes chamar coisa pior - "foram a votos" ostentando o número de mortos nos incêndios de Pedrógão Grande. O número oficial, portanto, que não é aquele que estes "anjinhos" queriam, pois andaram MESES a falar em CENTENAS DE MORTOS, ficando mais tarde satisfeitos com "cerca de uma centena", e agora, que vêem a sua canalhice definhar, contentam-se com "64, ou mais". Não há palavras para descrever o esgoto que esta gente é. Por detrás desta falta de verticalidade está uma tal de Cristina Miranda, como podem ver em cima na imagem. A assalariada da pulhice chegou mesmo a criar um movimento:


Este, quem em 4 meses de existência conseguiu menos que 3 mil seguidores. Até a extrema-direita, skinheads, neo-nazis e afins conseguem mais do que isso, e em menos tempo. Olhe, paciência, se pensou que um dia acordou para o lado que interessava a mais alguém. Será que teve educação moral e cívica, ao ponto de entender que não se deve capitalizar com o sofrimento e a dor alheias? E já agora...


Obrigado por me ter seguido, que assim fico dispensado de a notificar. Não que isso me rale, pois ao contrário de si, escrevo descomprometidamente, sem ambições políticas de espécie alguma, e sem que me paguem um centavo que seja. E por falar nisso, desconheço se é professora de "franciú", mas certamente de Matemática não é: 


Com que então "este era o sonho" de Catarina Martins. Ai foi ela que "engoliu sapos" - precisa que lhe recorde mais uma vez que apesar das campanhas negras que encetou e da baixeza de carácter que demonstrou, o PS ganhou em Pedrógão?  "Derrota dos outros"? Se acha que a CDU ter perdido dez câmaras e o PSD ter perdido nove para o PS "é a mesma coisa", então está mais desfasada do que eu pensava. E sim, o BE "deu um salto" nestas eleições, mesmo que pequeno:


O BE foi o único partido a subir além do PS, e a sua coordenadora teve a humildade de admitir que não cumpriu um dos objectivos, que era impedir as (muitas) maioria dos socialistas. Mesmo assim obteve mais 50 mil votos e mais quatro mandatos que em 2013, e com a eleição de Luís Robles na CM de Lisboa, "arriscam-se" a mandar na capital, ao lado de Fernando Medina. Por muito que a senhora tente, os seus argumentos são patéticos, e evidenciam desespero. Dedique-se antes a fazer o que sabe, que é ensinar sei lá o quê, que para isto vê-se logo que não tem jeitinho nenhum. E passe bem, se conseguir. Deve ser difícil ser quem é. 


Uma estátua


Esta é estátua dedicada ao Padre António Vieira, inaugurada em Junho último no Largo da Trindade, em Lisboa, e que está a causar uma celeuma a todos os títulos desnecessária, e triste. Acontece que ontem, feriado do 5 de Outubro, o SOS Racismo, encabeçado por Mamadou Ba, resolveu organizar uma manifestação contra a estátua, com o pretexto de que o Pe. António Vieira era um "esclavagista", e um "racista". Antes de mais nada, vamos discorrer sobre esta alegação, que não sendo inteiramente falsa, é no mínimo um anacronismo. Em primeiro lugar o padre António Vieira, um dos maiores vultos das letras em português, era um homem inteligente, pio e bom, foi contra a escravização dos indígenas brasileiros, contra a perseguição dos judeus, MAS era a favor da escravatura dos negros no Brasil, tendo sido inclusivamente a favor da repressão do Quilombo dos Palmares, uma comunidade de escravos negros feitos livres na colónia portuguesa. Contudo...


...a escravatura negra era a posição da Igreja Católica na altura - e convém relembrar que estávamos em pleno século XVII, e o Pe. António Vieira manteve-se fiel a essa posição, que tem um fundamento bíblico criacionista, nomeadamente no livro do Génesis. Tudo tem a ver com uma fábula que dá conta da "traição" de Cam (ou "Cham", ou "Cão"), o filho mais novo de Noé, logo após o Dilúvio, conforme consta no primeiro livro do Antigo Testamento, dos versículos 9:20 e 9:27:

E começou Noé a ser lavrador da terra e plantou uma vinha. 21 E bebeu do vinho e embebedou-se; e descobriu-se no meio de sua tenda. 22 E viu Cam, o pai de Canaã, a nudez de seu pai e fê-lo saber a ambos seus irmãos, fora. 23 Então, tomaram Sem e Jafé uma capa, puseram-na sobre ambos os seus ombros e, indo virados para trás, cobriram a nudez do seu pai; e os seus rostos eram virados, de maneira que não viram a nudez do seu pai. 24 E despertou Noé do seu vinho e soube o que seu filho menor lhe fizera. 25 E disse: Maldito seja Canaã; servo dos servos seja aos seus irmãos. 26 E disse: Bendito seja o Senhor, Deus de Sem; e seja-lhe Canaã por servo. 27 Alargue Deus a Jafé, e habite nas tendas de Sem; e seja-lhe Canaã por servo.


Isto em termos leigos, é mais ou menos assim: depois do Dilúvio, Noé plantou uma vinha, bebeu do seu fruto, e ficou embriagado, adormeceu, e deixou as suas "vergonhas" expostas. Cam, seu filho, em vez de salvaguardar o pudor de seu pai, chamou os irmãos e escarneceu dele. Posto isto, Noé lançou uma maldição sobre Cam e sobre Canaã, filho deste. Canaã é, segundo a Bíblia, o "pai" das pessoas de pele escura, e assim sendo, "seja-lhe Canaã (e seus descendentes) como servo". 

A maldição de Cam foi usada por alguns membros de religiões abraâmicas para justificar o racismo e a escravidão eterna de negros africanos, quem acreditavam ser descendentes de Cam. Defensores da escravidão nos Estados Unidos invocaram consistentemente este relato da Bíblia ao longo do século XIX em resposta ao crescimento do movimento abolicionista. Os Portugueses igualmente consideravam os negros descendentes de Cam - a cor era o sinal da maldição e justificava a escravidão. O Pe. António Vieira foi parcialmente contra essas convenções, opôs-se à escravatura dos índios, esses também de tez escura.

O "racismo" do Padre António Vieira é evidenciado nesta carta (ver link) que escreveu a Roque Monteiro Paim em 2 de Julho de 1691, já na parte terminal da sua vida, e da qual destaco esta passagem:


Isto é grave, é sério, é pesado, mas tem que ser contextualizado à época, e falamos aqui do século XVII, quando a Igreja Católica era (ainda mais) conservadora. O sr. Mamadou Ba, que suponho ser uma pessoa inteligente, devia ter estes aspectos em conta. A estátua do Largo da Trindade celebra o lado humanista e o génio literário do Pe. António Vieira, e não a sua faceta de esclavagista e apoiante do cativeiro dos negros, que considerava ser para eles "uma benção de Deus". O problema - e aqui deve ter existido alguma fuga de informação - foi que a suposta manifestação foi impedida por elementos da extrema-direita, vulgo "skinheads", ou "neo-nazis":


Estes são elementos do Escudo Identitário, um grupo mais ou menos recente com ligações ao PNR, e que se aproveitou do protesto do SOS Racismo para aparecer (têm apenas cerca de 400 seguidores no Facebook), e com isso ganhar pontos, além de visibilidade. Confrontado com a situação, eis o comentário de Mamadou Ba nas redes sociais:


Não, meu caro, a estátua não é uma "inaceitável provocação", mas serviu de pretexto para que a extrema-direita aparecesse. Se a ideia era demonstrar que existe uma "insurgência" de grupos xenófobos e racistas, parabéns, conseguiu isso. O problema é que as opiniões quanto a esta iniciativa dividem-se, e com o fiel da balança a pender para a reprovação. Recomendava-lhe que fosse menos impulsivo, e que estudasse um pouco mais de História. Sim, a escravatura foi um episódio lamentável, mas convém olhar para a frente, e investir as suas energias nas causas certas. E creio que aí concordará comigo quando digo que ainda há muito por fazer no que toca às consciências. Mas o Pe. António Vieira? Por favor, não vá por aí.


Youtuber



Esta é a canção vencedora do concurso "Portugal Juniores", que se realizou ontem - "Youtuber", interpretada por Mariana Venâncio. Portugal vai participar pela terceira vez no Festival Júnior da Eurovisão, depois de dez anos de ausência, e mais valia ter continuado assim. Já me chamaram "festivaleiro pimbalhão" e outras coisas por eu gostar do Festival da Eurovisão, mas este certame reservado a crianças entre os 10 e os 15 anos é algo que ainda não consegui entender muito bem. Boa sorte para a Mariana, de qualquer das formas.


Curiosidades sobre o mundial de sub-17


Arranca hoje e até ao próximo dia 28 a 17ª edição do mundial de sub-17, e que se realiza em seis cidades da India. A Nigéria, vencedora das duas últimas edições, vem procurar o sexto título, e vai encontrar uma oposição de peso, desde os campeões sul-americanos Brasil, à Espanha, campeã europeia, e outras selecções com nomes menos sonantes no futebol sénior, mas que a este nível conseguem por vezes surpreender. Vamos a uma pequena análise do torneio, referindo algumas das suas curiosidades mais interessantes.


Portugal não tem grandes tradições nesta prova, e assim mais uma vez não se conseguiu qualificar. Contudo há um português na competição, e é nem mais que o treinador da equipa da casa, o nosso conhecido Luís Norton de Matos, que foi indigitado selecionador dos sub-17 da India em 1 de Março deste ano, depois de ter trabalhado em Portugal pela última vez no União da Madeira. Espera-lhe uma tarefa complicada, pois os jovens indianos estão no grupo A, com os Estados Unidos, Colômbia e Gana, equipas com muito mais experiência nestas andanças.


Sangue luso-angolano há também na selecção da Inglaterra, com este jovem promissor dos quadros do Manchester United, Angel Gomes, filho de Gil Gomes, que se estiverem recordados, foi campeão do mundo de sub-20 por Portugal em 1991. A Inglaterra conta com alguns nomes de peso para além de Angel, como são os casos de Jadon Sancho (Borussia Dortmund) ou Steven Sessegnon (Fulham). Recorde-se que a Inglaterra é actual campeã mundial de sub-20, e tem obtido excelentes resultados ao nível da formação.


Outro nome português, e também de apelido Gomes: Claúdio Gomes, um jovem de 17 anos de origem guineense das escolas do Paris SG, e que vai capitanear a selecção francesa. Outro nome a ter em conta nos gauleses é o avançado Willem Geubbels, que já fez a sua estreia pela equipa principal do Lyon, apesar dos seus 16 anos.


Um dos cabeças de cartaz da competição é sem dúvida Timothy Weah, filho do antigo internacional liberiano e vencedor do Balon D'or, George Weah, e de quem já falei neste artigo. Apesar de alinhar actualmente pelos sub-19 do Paris SG, Timothy aparece neste mundial a representar os Estados Unidos, país onde nasceu. Certamente que se se confirmar o seu talento, a França estará interessada numa eventual mudança de aliança por parte do jogador.


A Coreia do Norte participa neste mundial pela 5ª vez, e pela segunda consecutiva. Na equipa norte-coreana há seis jogadores de apelido Kim, e o treinador chama-se Kim Yong-su. Além da equipa da casa e dos norte-coreanos, os restantes representantes do continente asiático são o Irão, o Iraque e o Japão. A Nova Zelândia e a Nova Caledónia, esta última uma estreante, representam a Oceânia, enquanto que o Niger também faz a sua primeira participação como representante do continente africano, em conjunto com a Nigéria, Gana, Guiné e Mali.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Perguntar não ofende


Gostava de saber o que é que a Cristina Miranda pensou da vitória do PS em Pedrógão Grande, depois de ter andado MESES a fazer propaganda anti-Governo e a pedir mais mortos no incêndio (ver este post, de Julho último). Eu dizia-lhe para ganhar vergonha na cara, mas acho que a tinta azul que a madama usa no cabelo afectou-lhe o cérebro.


E a criatura ainda estrebucha, fazendo um "surf" virtual na onda de ressabiamento com os resultados das últimas eleições. É para isso que lhe pagam, já que o salário de professora de "franciú" (não, não é de Ciência Política, Economia ou Filosofia: é "franciú") não lhe chega. Um dia chegamos a sonhar que somos alguém e toda a gente nos lê e escuta. Outro dia acordamos e somos uma Cristina Miranda qualquer desta vida. Chapeau.


Herman? Quem? Ah...aquele que trabalha com a Maria Vieira? Já sei!



Lembram-se da Maria Vieria? Sim,é aquela diminuta personagem secundária que apareceu nas séries "Humor de Perdição", "Casino Royal" e nos especiais de fim de ano em 1991 e 1992. A questão é: alguém saberia da existência da Maria Vieira se não fosse pelo Herman? Ora bem, agora o marido da actriz, que como toda a gente com o mínimo de bom senso sabe, usurpou a conta da mulher do Facebook, vai cuspir no prato onde anda a comer há anos. Sim, o "escritor" Fernando Duarte da Rocha não tem outro emprego há mais de 30 anos que não o de "marido da Maria Vieira" (e mesmo assim casaram apenas em 2011). Depois de pelo menos três anos de verborreia debitada na sua página, Herman deu finalmente um toque:


"Não tem mais que 50 palavras no seu vocabulário". Facto. E quando tem mais do que isso, é quando recita os textos que lhe dão para decorar - mas alguém tem alguma dúvida quanto a isso? Fernando Duarte Rocha tem resistido a contra-atacar a pessoa que praticamente lhe pôs comida na mesa durante anos, mas como é má rês, não resistiu:


Este Oliveira da Figueira, não o personagem dos livros do Tintin, mas um cobarde "espalha brasas" que se socorre de um perfil falso para vomitar alarvidades nas redes sociais (se calhar tem amor ao emprego, ou isso) provoca o Fernandinho com as declarações do Herman, e este responde com uma putativa "decadência" do humorista, que como se sabe tem um programa no horário "prime time" do canal público, e ainda recentemente obteve um enorme sucesso com a sua conta no Instagram, que tem milhares de seguidores. E não se ficou por aqui, o biltre:


"O Herman sempre teve outros que lhe escreviam os textos que ele decorava e interpretava", diz a Marta Sofia Pereira sobre a pessoa que revolucionou o humor em Portugal nos anos 80 com o "Tal Canal", uma programa de humor completamente da sua autoria. Um minuto do "Tal Canal" neutraliza por completo a carreira inteira da Maria Vieira. Mas esta "picadora" não é completamente inocente:


Pois. É da clique do Mário Machado, do grupo de novos amiguinhos da "Maria Vieira". Gente "educada, civilizada e inteligente", como "ela" diz. E para terminar...


...a "liberdade de expressão". O desfasamento chegou ao ponto em que o marido de Maria Vieira afirma que as pessoas precisam de falar dela para "recuperar o seu público". Ah ah ah ah ah ah! Quem ainda acha que isto é uma questão de "liberdade", e de que a Maria Vieira "tem o direito de escrever o que muito bem lhe apatecer", tenho só esta pergunta: então porque é que ela não escreve???


Corrula


Olha que o rapaz "disse verdades", e que não ficou nada a dever ao "politicamente correcto". Afinal, apenas exerceu a sua "liberdade de opinião". Então? Em vez de o criticarem, deviam endeusá-lo.

Ai vou já seguir a página dele e dizer nos comentários que "gosto muito de o ver trabalhar", e que "quem fala mal tem inveja", e chamar "tóxicos" aos críticos dele.

Não há por aí uma Câmara Municipal para o rapaz concorrer também, já agora?


segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Autárquicas em revista


A CONTA DO TALHO

Há duas leituras que se podem fazer dos resultados de ontem das eleições autárquicas, sendo que em ambas é comum reconhecer que a vitória foi para o PS - os socialistas conseguiram 158 das 308 câmaras municipais, e obtiveram mais 140 mil votos do que há quatro anos. A primeira leitura faz do PSD e da direita os grandes derrotados, e a segunda leitura, que se pode chamar de "alternativa", dá como grandes derrotados o PCP e o Bloco de Esquerda, aliados do PS no Governo, onde formaram há dois anos a tal "Geringonça". Como se pode ver no quadro em cima, o PSD perdeu sete câmaras e a CDU (PCP+Verdes) perdeu 10, enquanto o Bloco de Esquerda aumentou o número de votos em 50 mil, e ainda passou de 8 a 12 mandatos a nível nacional. Pode-se dizer, portanto, que o grande vencedor é o PS, o pequeno vencedor é o BE, e os grandes derrotados são a CDU e o PSD. E destes dois últimos, o segundo tem uma grande quota de responsabilidade no desaire do primeiro. E comecemos pelo grande choque da noite eleitoral...


DE LA FRANCE PARA ALMADA

...Almada. Sim, o grande bastião comunista na margem sul da Grande Lisboa caiu nas mãos do PS pela primeira vez na história. Impensável. A nova edil socialista é Inês de Medeiros, mais conhecida por ser filha do maestro António Vitorino de Almeida, e irmã da actriz Maria de Medeiros, de "Henry & June" e "Pulp Fiction". E não foi só Almada que sucumbiu na margem sul; também o Barreiro e Alcochete mudaram de vermelho para rosa, enquanto o Montijo e Sines mantiveram as já existentes câmaras do PS. Apesar de vencer em Loures, que se havia tornado um dos pontos de interesse da campanha eleitoral, depois das declarações xenófobas do candidato do PSD, e ainda em Setúbal, a cidade do Sado passou a ser a única capital de distrito comunista, pois Beja reverteu também para os socialistas. A juntar à capital alentejana, Moura, Barrancos e Castro Verde passaram também da CDU para o PS. E não foi por causa de uma CDU mais fraca que isto aconteceu, mas por culpa da bipolarização entre a esquerda e a direita, provocada pela desorientação de Pedro Passos Coelho à frente do PSD. O eleitorado viu no PS a antítese do PSD, teve em mente as diferenças entre a governação de Passos Coelho e actual, e pronto, os resultados combinaram-se. E foi mesmo uma noite em grande para o PS, a começar...


MEDINA, AND THEN SOME

...pela capital, onde Fernando Medina foi eleito, ficando à beira da maioria obtida por António Costa há quatro anos. Com o Bloco da Esquerda a eleger um mandato, fica fácil encontrar um parceiro de coligação. E foi um pouco assim pelo país todo, a onda rosa. Vitórias em Coimbra, Guimarães, Viana do Castelo, e locais "sensíveis", como Pedrógão Grande, Figueiró dos Vinhos, e até na Marinha Grande. A título de curiosidade refira-se que o PS venceu também em Santa Comba Dão e Loulé. Para bom entendedor...


CRISTAS DESCOBRE UMA PETINGA

Assunção Cristas foi, curiosamente, uma das "vitoriosas" da noite eleitoral, mesmo que apenas auto-denominada. A candidata do CDS à Câmara de Lisboa ficou em segundo lugar, com quase o dobro da votação do PSD, numa espécie de "duelo da segunda-circular" da direita portuguesa. O CDS em geral obteve menos 200 mil votos e perdeu 11 mandatos em relação a 2013, mas manteve as quatro câmaras que detinha.


"ROUBA, MAS FAZ"

Foram 17 as câmaras conquistadas por grupos de cidadãos independentes, sendo a mais importante a do Porto, onde Rui Moreira foi reeleito. Contudo o maior mediatismo recaía em Isaltino Morais, que voltava a concorrer à câmara de Oeiras, onde foi presidente durante 30 anos, antes de ser preso por corrupção. Isaltino torna-se assim o explendor máximo do caciquismo à portuguesa, depois dos seus "camaradas de armas" Valentim Loureiro e Narciso Miranda terem sido derrotados em Gondomar e Matosinhos, respectivamente.


FINALMENTE, E POR FIM...

Alguns olhos estavam postos em Loures, onde a campanha aqueceu com as declarações de teor xenófobo do candidato do PSD, André Ventura, que identificou a comunidade cigana como um dos problemas do concelho. Apesar de ter repetido a votação de há quatro anos da coligação com o CDS (que retirou o apoio ao candidato após as referidas declarações), não se pode dizer que o populismo trouxe assim grandes resultados. A CDU voltou a vencer com Bernardino Soares, e o PS ficou em segundo lugar. Também o discurso anti-Islão do PNR não surtiu grandes resultados, e em Lisboa o partido teve menos 9 votos que há quatro anos, apesar de apostar num "enorme crescimento".


sábado, 30 de setembro de 2017

Bipolares


Para terminar a semana (e o mês) em beleza, nada como o artigo desta semana do Hoje Macau. Uma boa semana dourada para todos.

Esta semana tomei a liberdade de “roubar” ao meu amigo Manuel Cruz um desabafo seu nas redes sociais, que aqui passou a reproduzir, com a devida vénia.

Permitam-me um desabafo: tenho amigos de direita. Mas nem um – nem um! – diz o que leio de certa gente que comenta aqui no facebook. Trump é um génio. Costa, um monhé horroroso e usurpador e ladrão. Pretos e ciganos, nem vê-los. Árabes, essa raça maldita. Os gays, trans, lésbicas e quejandos deviam ser exterminados. Comunistas, uns facínoras sanguinários. No tempo de Salazar é que era bom.

Fico com o coração apertadinho, com um nó na garganta. Não consigo entender tanto ódio a quem nunca nos fez mal, a quem é diferente de nós e que, por isso mesmo, nos completa. Não consigo entender tanta paixão por abjecções como o patrão da Casa Branca. Não consigo, por mais que tente, sentir que esta gente é gente.

Eles sim, estão cá a mais. Que belo país não se faria com os ultras de todo o mundo. Eles estariam no paraíso. E, nós, mais arejados.

Como o entendo tão bem, meu caro, e partilho da sua angústia. Como se sabe, vamos ter eleições autárquicas em Portugal no próximo domingo, e apesar de se tratar apenas do exercício da democracia na sua variante do poder local, os resultados deste sufrágio vão servir também de barómetro à satisfação do eleitorado pelo actual executivo governamental. Assim dizem. Num país cada vez mais bipolarizado entre direita e esquerda, e com a retórica a subir cada vez mais de tom, prevê-se uma derrota pesada da direita, e por culpa própria. É que esta direita que anda por aí à solta não é a direita liberal e progressista da via da social-democracia em que tanto eu como muitos – possivelmente também confusos por esta altura – se revê.

Esta direita espalha brasas é a direita anti-democrática, a extrema-direita clássica, e não só – houve parte da “velha guarda” que resolveu sair da toca e dar sinais de vida. Esta direita “ultra” ainda faz pouco eco em Portugal, mas tem sido responsável pelos maiores equívocos a que temos assistido ultimamente na Europa e no mundo. Não me surpreendeu tanto o ressurgimento da extrema-direita nas últimas eleições da Alemanha, que ficou expresso em “apenas” 13% dos votos. E porquê apenas? Com as tácticas de medo, a propaganda chinfrim e o maniqueísmo que vêm vindo a ser aplicadas na Europa de há três ou quatro anos para cá, podiam ter chegado a uns 20%, limpinhos.

Afinal esta direita, a gémea má da direita como deve ser, conseguiu convencer os rústicos da Provença que nunca viram um árabe na vida de que estes “vinham aí” para o “roubar”, “matar” e “violar as suas filhas”, ou para “destruir a sua cultura e modo de vida”. Foram estes que recrutaram uma legião de aposentados britânicos para votar na saída da União Europeia, com a (falsa) promessa de injectar o dinheiro de Bruxelas no seu próprio plano nacional de saúde. Guardando o melhor para o fim, foram estes meninos que sentaram na Casa Branca a pessoa mais inepta que se podia recear, e sob o pretexto de que ia “vazar o pântano” da política em Washington. Não apenas se absteve de vazar aquele, como tem aberto uns outros quantos em seu nome.

Em Portugal estamos mais ou menos descansados – ainda. Esta direita “mutante” faz sobretudo alarido nas redes sociais, onde é mestre “confusionista”; adultera factos, difunde o ódio, urde teorias da conspiração delirantes, e vai contra aquilo que chama “multiculurismo”, que protesta – depois mete-se no Mazda e vai comer um “kebab”, e chama de “marxistas” a todos que não concordem com ele em género e grau. Sobre o isso do multicularismo, para mim é como tudo: tem virtudes e tem defeitos. A eliminação pelo defeito já foi tentada antes, e com os resultados desastroso que se conhecem. A direita convencional não se deixa levar pelo conceito, mas às vezes deixa-se contagiar; ora pede mais mortos nos incêndios, ora apoia um candidato às autárquicas que promove abertamente a segregação de uma minoria, uma sucessão de momentos infelizes. Tudo isto prolifera e reproduz-se a cobro de uma nova interpretação do conceito de “politicamente correcto”, que passou a ser uma coisa “má”. Em suma, o tal “desprezo pelo politicamente correcto” passou a servir de pretexto e cobertura para que se balbuciem ou se escrevinhem todos os tipos de disparate.

Esta bipolarização é péssima, e leva a uma espécie de obsessão que se extende muito para lá dos limites do debate (?) político. O fanatismo tem aparecido em força na clubite futebolística, na religião, nos direitos dos animais, nos defensores do Tony Carreira, nos anti-Ronaldo, enfim, há de tudo, como na farmácia. Hoje ter uma convicção é mais ou menos como ter uma doença crónica: está lá, chateia um bocado, e o único tratamento é dar sempre razão ao paciente. Assim no domingo que vem muito provavelmente o sortido de esquerdas terá mais uma razão para festejar, a direita radical fica a resmungar, e nós, bem, ficamos a suspirar por um dia destes, quando todo este catarro democrático passar e deixemos de ser tão bipolares.